terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Estamos atentos ao que se diz?

Nicholas está se tornando o poderoso queridinho da comunicação no Brasil, principalmente entre mentores e coachies. De fato, ele tem o dom da retórica. E é branco, jovem e domina as novas linguagens, um ativo essencial nesses tempos em que a forma tem prevalência sobre o conteúdo (ou será que a embalagem é a essência da comunicação?).

Mas a forma de expressão de Nicholas não é nova. É sofista, espalha fake news, nega o que disse antes conforme a situação... Existe uma figura que conheci, por meio de uma biografia nos anos 90 - Roy Cohn. Ano passado descobri que fora o mentor de Trump. Se conheceram em 1972.

Cohn foi o advogado mais duro, cruel, vil e brilhante da América” no século XX. Foi responsável por mandar o casal Rosemberg para a cadeira elétrica sem provas consistentes e, por isso, o bruxo nos bastidores das “comissões antiamericanas” durante o macartismo.

Ele seguia três leis que inventou: 1) atacar, atacar, atacar; 2) negar tudo; 3) nunca admitir derrotas, aconteça o que acontecer. É o estilão de Trump, que toma posse hoje, que foi imitado sem talento por Bolsonaro (responsável por parte das 700 mil mortes durante a covid por conta de seunegacionismo) e por Nicholas, que possui mais talento.

Mas se há uma coisa que a história registra é que essas pessoas são muitos perigosas e danosas para a sociedade, sempre implicando em banhos de sangue, mais ainda quando seu cinismo é substituído por fanatismo. Nicolas deveria ser analisado pelo conteúdo do que diz, suas contradições que são minimizadas pela capacidade de oratória olavista e de entendimento de como funciona as redes sociais (como defender trabalhadores duma suposta taxação do pix, após ter votado na taxação da shopee e outros portais que fornecem uma curta alegria para os pobres).

Nisso, Pablo Maçal também é um craque. Fez fortuna com fanfarronices de socar tubarões, dirigir melhor do que Senna, e um “mindset” de que basta querer (como o sol não é para todos, a culpa será sempre sua por não conseguir).

Nicholas Ferreira teve 300 milhões de compartilhamentos de seu vídeo contra o controle do pix. Funcionou? Claro! É baseado numa suspeita que leva ao medo. Mas o Brasil tem 220 milhões de habitantes. Em tempos de robôs e algoritmos internacionais à disposição de uma ideologia cujos objetivos são muito claros, quantas pessoas compraram sua retórica ou o medo que ela causou?

Essas pessoas precisam ser combatidas diuturnamente. Não tem escrúpulos m espalhar mentiras nem compromisso com uma análise honesta da verdade. Vejam como a vacinação caiu no Brasil.

É só semear suspeita, privilegiar aspectos secundários de uma discussão, desqualificar moralmente o oponente. Aprendi isso no início dos anos 80, discutindo a ditadura com os onipresentes velhos barrigudos e “imbroxáveis” que lotavam os botequins de Santa Tereza e da Floresta. Uma mentira bem embalada jamais se tornará uma verdade. Só durante algum tempo, talvez durante um mero minuto decisivo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A solução matemática da equação poética


Sobre a criação poética, a imagem que vem ao inconsciente das pessoas é da encarnação do próprio Fernando Pessoa: “Não sou em quem descrevo. Eu sou a tela/ E oculta mão colora alguém em mim.”. No entanto, esse processo de ordenação de metáforas que culminam com o exercício poético, nada tem de frenesi, de intuição extática. Disse Drummond: “Lutar com palavras/ a luta mais vã./ Enquanto lutamos/ mal rompe a manhã.” Se houvesse algum “Big Brother poético”, certamente veríamos o itabirano em cautelosas seleções, debruçado sobre dolorosas emendas e rejeições, na ferrenha batalha para encontrar “le juste mote”, ou a palavra certa.

De muita valia aos aspirantes à poesia, é o artigo escrito por Edgan Allan Poe (Obras Completas, Nova Aguilar) à propósito da elaboração de “O Corvo” — talvez o mais emblemático poema do romantismo em língua inglesa. “É meu designo tornar manifesto que nenhum posto de sua composição se refere ao acaso ou à intuição, que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com precisão e a seqüência de um problema matemático”, argumentou a “mente brilhante” do poeta.

Ao criar “O Corvo”, Poe visualizava um poema que proporcionasse um grau de excitação que não o colocasse acima do gosto popular e nem abaixo do da crítica. E afirma, com todas suas letras e rebuscadas prosas, que delimitara uma extensão de cem rimas. De fato, ele tem cento e oito! Houve também a escolha prévia da melancolia, pois, segundo o autor, é “o mais legítimo de todos os tons poéticos”.

Poe se entregou à engenharia de obter “algum efeito artístico agudo que pudesse servir de nota-chave na construção do poema”. Portanto, passou em revista todos os efeitos usuais e verificou que nenhum tinha a universalidade do refrão, que por sua força monótona nunca deixa de impressionar. Deveria ser uma pequena palavra, para facilitar variações, que, ao mesmo tempo, se repetisse com grande força. Portanto, após estudos sobre a língua inglesa, concluiu que a letra “o” seria a vocal mais sonora e o “r” a consoante mais aproveitável. O “nevermore” se apresentou naturalmente, ao primeiro exame.

Na “Filosofia da Composição” continua a explanar sobre questões ainda mais pertinentes, como o casamento entre a Morte e a Beleza, numa recordação lutuosa e infindável, e que “O Corvo” iniciou-se pela última estrofe para que seu autor pudesse manipular o clímax poético.

Como se vê, para lograr êxito, a luta com as palavras na composição poética precede-se de um planejamento cuidadoso, digno das estratégias militares e do gênio Clausewitz. Mas não devemos ser radicais pois o mineiro é tradicionalmente um poeta, haja vista as mais de mil obras sempre inscritas no concurso poético “Cidade de Belo Horizonte”. Mas há os opositores dessa tese . Sentenciou Cassiano Ricardo, poeta e historiador paulista: “Amo a rima que vem/ com a desordem das flores/ .../ o que já não suporto/ é a rima em lugar certo”. No entanto o poeta mente, o que já é uma outra história...


Fernando Righi, março 2002