quarta-feira, 29 de julho de 2009

A solução matemática da equação poética


Sobre a criação poética, a imagem que vem ao inconsciente das pessoas é da encarnação do próprio Fernando Pessoa: “Não sou em quem descrevo. Eu sou a tela/ E oculta mão colora alguém em mim.”. No entanto, esse processo de ordenação de metáforas que culminam com o exercício poético, nada tem de frenesi, de intuição extática. Disse Drummond: “Lutar com palavras/ a luta mais vã./ Enquanto lutamos/ mal rompe a manhã.” Se houvesse algum “Big Brother poético”, certamente veríamos o itabirano em cautelosas seleções, debruçado sobre dolorosas emendas e rejeições, na ferrenha batalha para encontrar “le juste mote”, ou a palavra certa.

De muita valia aos aspirantes à poesia, é o artigo escrito por Edgan Allan Poe (Obras Completas, Nova Aguilar) à propósito da elaboração de “O Corvo” — talvez o mais emblemático poema do romantismo em língua inglesa. “É meu designo tornar manifesto que nenhum posto de sua composição se refere ao acaso ou à intuição, que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com precisão e a seqüência de um problema matemático”, argumentou a “mente brilhante” do poeta.

Ao criar “O Corvo”, Poe visualizava um poema que proporcionasse um grau de excitação que não o colocasse acima do gosto popular e nem abaixo do da crítica. E afirma, com todas suas letras e rebuscadas prosas, que delimitara uma extensão de cem rimas. De fato, ele tem cento e oito! Houve também a escolha prévia da melancolia, pois, segundo o autor, é “o mais legítimo de todos os tons poéticos”.

Poe se entregou à engenharia de obter “algum efeito artístico agudo que pudesse servir de nota-chave na construção do poema”. Portanto, passou em revista todos os efeitos usuais e verificou que nenhum tinha a universalidade do refrão, que por sua força monótona nunca deixa de impressionar. Deveria ser uma pequena palavra, para facilitar variações, que, ao mesmo tempo, se repetisse com grande força. Portanto, após estudos sobre a língua inglesa, concluiu que a letra “o” seria a vocal mais sonora e o “r” a consoante mais aproveitável. O “nevermore” se apresentou naturalmente, ao primeiro exame.

Na “Filosofia da Composição” continua a explanar sobre questões ainda mais pertinentes, como o casamento entre a Morte e a Beleza, numa recordação lutuosa e infindável, e que “O Corvo” iniciou-se pela última estrofe para que seu autor pudesse manipular o clímax poético.

Como se vê, para lograr êxito, a luta com as palavras na composição poética precede-se de um planejamento cuidadoso, digno das estratégias militares e do gênio Clausewitz. Mas não devemos ser radicais pois o mineiro é tradicionalmente um poeta, haja vista as mais de mil obras sempre inscritas no concurso poético “Cidade de Belo Horizonte”. Mas há os opositores dessa tese . Sentenciou Cassiano Ricardo, poeta e historiador paulista: “Amo a rima que vem/ com a desordem das flores/ .../ o que já não suporto/ é a rima em lugar certo”. No entanto o poeta mente, o que já é uma outra história...


Fernando Righi, março 2002